Inspirados na ternura da Boa Mãe e na firmeza do Bom Pai, refletimos sobre o caminho vocacional e o sentido da vida consagrada em nossos tempos.
Na quietude de um coração que começa a escutar o chamado de Deus, muitas vezes surge a pergunta: “Senhor, o que queres de mim?” Não são raros os momentos em que essa pergunta ecoa no silêncio de uma capela, no serviço aos pobres ou no olhar contemplativo diante do mundo.
A vida consagrada nasce deste eco interior. E, em tempos em que tantas vozes competem pela nossa atenção, os conselhos de quem trilhou esse caminho com santidade se tornam ainda mais preciosos.
Assim são os ensinamentos do Bom Pai e da Boa Mãe, fundadores da Congregação dos Sagrados Corações. Suas palavras não apenas marcaram gerações, mas continuam a inspirar jovens, leigos e religiosos a viverem com profundidade o seguimento de Jesus. Este artigo é um convite: a escutar, com o coração aberto, aquilo que o Espírito pode estar sussurrando em sua alma.
O exemplo luminoso dos fundadores
O padre José Maria Coudrin, conhecido como Bom Pai, e a madre Henriqueta Aymer de la Chevalerie, a Boa Mãe, foram os co-fundadores da Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. Eles viveram em tempos desafiadores, na França pós-revolucionária, e souberam reconhecer os sinais de Deus mesmo em meio ao caos.
Enquanto o Padre Coudrin se escondia em um celeiro por mais de um ano para escapar da perseguição religiosa, ali teve uma visão do Senhor pedindo que fundasse uma congregação para reparar os corações feridos. Já Madre Henriqueta, após uma forte experiência de oração, sentiu o mesmo ser chamado a consagrar-se e unir-se a essa missão.
Portanto, seus conselhos não vêm de teorias, mas de uma experiência real e profunda com o Coração de Jesus e o Coração de Maria. Eles nos ensinam que a vida consagrada não é apenas uma escolha, mas uma resposta amorosa e generosa ao amor que nos precede.
Palavras que ecoam até hoje
os escritos e ensinamentos do Bom Pai e da Boa Mãe revelam a alma da vocação consagrada. O Padre Coudrin expressava com clareza o centro de sua fé:
“Em Jesus encontramos tudo: seu nascimento, sua vida e sua morte.”
Essa frase resume a espiritualidade profundamente cristocêntrica que orientou sua entrega total à missão. Em cada momento da vida de Cristo, ele via uma luz para o caminho dos consagrados — desde a simplicidade do presépio até a cruz do Calvário.
Essas palavras e atitudes refletem a essência do carisma do Bom Pai, e continuam a tocar o coração de muitos jovens vocacionados hoje.
A Boa Mãe, por sua vez, viveu com profundidade o mistério da cruz. Seu amor a Cristo crucificado foi tão intenso que fez um voto pessoal:
“Eu fiz o voto de ser crucificada em tudo, ou seja, com coração, espírito, vontade, ação; devo não apenas aceitar todas as cruzes, todos os sofrimentos, todos os contratempos que se apresentam, mas também dizer: ainda mais, Senhor!”
Essa entrega absoluta não era resignação, mas um ato de amor. Henriqueta via na cruz o lugar onde o amor se tornava completo — e nela se unia aos sofrimentos de Cristo para a salvação do mundo.
Aspectos centrais da espiritualidade dos fundadores
- Cristocentrismo radical
Ambos colocavam o Coração de Jesus como centro da missão: Coudrin, no anúncio e reparação; Henriqueta, na união profunda e silenciosa com Cristo crucificado. - Amor missionário
O Bom Pai acreditava no envio como expressão do amor. A congregação nasceu para evangelizar, formar e reparar — por todos os modos e meios. - Vida de oração e comunidade
Para ambos, a oração era o pulmão da missão. A vida comunitária sustentava a entrega e fortalecia os vínculos da fraternidade consagrada. - Serviço aos pobres e esquecidos
O amor preferencial pelos pequenos era visível na ação concreta de ambos. Servir era parte essencial da espiritualidade e do apostolado. - Entrega total e confiança na vontade de Deus
A frase da Boa Mãe — “ainda mais, Senhor!” — ecoa o espírito de ambos: viver a consagração como uma oferta contínua, mesmo diante das dores.
Que o testemunho do Bom Pai e da Boa Mãe nos inspire a viver a missão com coragem, a cruz com amor e o chamado de Deus com generosidade, dizendo com o coração inteiro: “ainda mais, Senhor!”
O ramo secular: consagração no mundo
Além das formas tradicionais de vida religiosa, a Congregação dos Sagrados Corações também reconhece o valor da consagração secular. Os membros do ramo secular vivem no mundo, com suas famílias, profissões e rotinas, mas assumem um compromisso profundo com a espiritualidade dos Sagrados Corações.
Eles nos mostram que a vida consagrada não está limitada ao claustro ou aos votos públicos. Pode também florescer em meio às ruas da cidade, nas salas de aula, nos hospitais e nas casas comuns. É um lembrete de que o chamado de Deus é sempre criativo, pessoal e surpreendente.
Por isso, refletir sobre os conselhos da Boa Mãe e do Bom Pai é também abrir-se à possibilidade de viver essa espiritualidade de forma secular: no ordinário da vida, tornar visível o extraordinário amor do Coração de Jesus.
A celebração da vida consagrada
No contexto do mês vocacional, o terceiro domingo de agosto é dedicado de maneira especial à vocação para a vida religiosa e consagrada. É um momento litúrgico precioso, no qual toda a Igreja é chamada a rezar por aqueles que consagram sua vida inteiramente a Deus. Moças e rapazes, homens e mulheres, que, como Maria, dizem “sim” todos os dias à vontade divina.
É também um tempo propício para rezar pelas vocações que ainda estão em discernimento, para que muitos jovens sintam o chamado de Deus e tenham coragem de responder com generosidade.
Quando o coração começa a escutar
O discernimento vocacional pode ser um processo demorado, cheio de dúvidas e perguntas. Contudo, os conselhos da Boa Mãe e do Bom Pai servem como faróis nesse caminho. Eles não oferecem respostas prontas, mas apontam para uma direção segura: viver unidos aos Corações de Jesus e Maria, em amor, serviço e reparação.
Se esse for o seu primeiro passo, confie: o Bom Pai e a Boa Mãe caminham com você. Que eles te inspirem a seguir com coragem, paz no coração e confiança no chamado de Deus.
Não tenha medo de dizer sim
O chamado à vida consagrada é antes de tudo um chamado ao amor. Amar a Deus com todo o coração e amar o próximo com toda a alma. É uma vocação exigente, mas profundamente fecunda. A vida consagrada não é para “perder a vida”, mas para encontrá-la em abundância.
Se você sente esse chamado, não tenha medo. Permita-se conhecer o carisma dos Sagrados Corações. Sobretudo, reze: “Senhor, mostra-me o caminho que devo seguir.”
Confie: o Bom Pai e a Boa Mãe caminham com você. Que eles te inspirem a seguir com coragem, paz no coração e confiança no chamado de Deus.