Nasceu na Bélgica, na região flamenga, aos 3 de janeiro de 1840. Tendo entrado no noviciado da Congregação dos Sagrados Corações, adotou o nome de Damião. Influenciado pelo seu irmão, que quis ser missionário em terras distantes, ele também resolveu ir para lugares de missão. Obteve a permissão de mudar-se para o arquipélago do Havaí.
Chegou, assim, a Honolulu, que é a capital das ilhas. Ali recebeu a ordenação presbiteral e começou a dedicar-se particularmente aos enfermos. Naquele tempo os enfermos que padeciam de lepra ou hanseníase eram enviados e obrigados a viver em uma colônia, na ilha de Molokai. E diante da necessidade de ter um padre para o atendimento religioso e espiritual, prontificou-se a assumir essa missão.
Humberto van Lieshout, mais tarde conhecido como Padre Eustáquio, nasceu no dia 3 de novembro de 1890, em Aarle Rixtel, na Holanda. Ingressou na Congregação dos Sagrados Corações no ano de 1905, levado pelo desejo de imitar o São Damião de Molokai, sacerdote da mesma Congregação, apóstolo dos leprosos e mártir da caridade. Fez o noviciado no ano de 1913, na cidade de Tremelo, na Bélgica. Ao receber o hábito religioso, tomou o nome de Eustáquio. Professou os votos religiosos no dia 27 de janeiro de 1915. Foi ordenado padre, no dia 10 de agosto de 1919, foi ordenado sacerdote. Seu primeiro campo de trabalho foi uma colônia de belgas refugiados perto do porto de Rotterdam. Passou positivamente neste primeiro teste de seu zelo apostólico sendo condecorado, pelo Rei da Bélgica, como Cavaleiro da Coroa Belga. Pregador de retiros nas paróquias foi a sua segunda nomeação, em 1924.
Durante a Guerra Civil Espanhola (1936–1939), a Igreja na Espanha atravessou um dos períodos mais dolorosos de sua história. Em meio à perseguição religiosa desencadeada pelo conflito, muitos cristãos foram presos, torturados e assassinados por causa de sua fé.
A Congregação dos Sagrados Corações sofreu profundamente nesse contexto. Quatorze religiosos deram a própria vida como testemunho de fidelidade a Cristo. Embora apenas cinco tenham tido suas causas formalmente introduzidas para o reconhecimento oficial do martírio — por falta de informações precisas sobre o destino dos demais — para a Congregação todos são reconhecidos como verdadeiros mártires da fé.
Testemunhas da Fé e do Amor até o Fim
Em março de 1871, estourou na França uma revolta chamada “Comuna de Paris”. No centro das desejadas reformas políticas e sociais estava um desejo de maior participação, liberdade e igualdade, assim como a secularização da sociedade e o acesso de todos à educação. Buscava a ruptura com a velha ordem. Os religiosos foram acusados de cumplicidade com os opressores feudais, capitalistas, bonapartistas ou opressores de Versalhes.
No dia 12 de abril, os membros da revolta, chamados “federados”, entraram nas casas dos Irmãos e Irmãs da Congregação dos Sagrados Corações (SSCC) na rua Picpus. 12 padres e 1 irmão foram levados para a prisão.
Na localidade da ilha, chamada Kalaupapa, havia 600 leprosos. Com sua presença, a vida daquela colônia, que se encontrava em situação de precariedade pela falta de recursos e de organização, começou a melhorar com a implantação de trabalhos agrícolas e um sistema escolar mais adequado. Padre Damião construiu também uma igreja e estabeleceu uma paróquia. Este trabalho tornou-se conhecido e teve apoio até de entidades internacionais. Infelizmente, o missionário contraiu a doença. Mesmo assim continuou suas atividades, até falecer aos 15 de abril de 1889. Havia completado 49 anos de vida.
No meio de sua heroica dedicação àquele povo, costumava repetir: “Nenhum sacrifício é grande demais, se feito por amor a Jesus Cristo”. Padre Damião foi beatificado em 1995 pelo Papa São João Paulo II e canonizado em 2009 por Bento XVI. Sua vida retratada inclusive em filmes como “Damião: o santo de Molokai” e outros, mostra onde o heroísmo cristão pode chegar: ao esquecimento de si mesmos, para cuidar do próximo abandonado! Belo exemplo que nos incentiva a também estarmos disponíveis em servir aqueles que mais precisam de presença fraterna e de ajuda!
Foi enviado como missionário, em 1924, na Espanha e, no ano seguinte, no Rio de Janeiro, Brasil. Em 1925, assumiu, com outros missionários, a pastoral do Santuário da Abadia de Água Suja e outras paróquias da Diocese de Uberaba, e atendimento a outras comunidades. Em 26 de março de 1926, foi nomeado Reitor do Santuário Nossa Senhora da Abadia e Conselheiro da Congregação dos Sagrados Corações no Brasil.
Em suas orientações e curas físicas, Padre Eustáquio falava da disposição de Deus de curar a pessoa integralmente. Indicava medicamentos. Servia-se de folhas e raízes e muitos procuravam sua ajuda. De Romaria, foi transferido para Poá – São Paulo. Por causa do aglomerado de pessoas que o procuravam e pelo transtorno, foi enviado à cidade de Araguari, onde se comunicava quase só com seu amigo Padre Gil. Em 12 de fevereiro passou a coordenar a paróquia de Ibiá. E, no dia 7 do mesmo ano, o encontramos na Capital mineira, na Paróquia de Cristo Rei.
O povo afluiu pedindo bênçãos e curas. Em 9 de setembro de 1942, Juscelino Kubitschek, então Prefeito da Capital, beneficiado por milagre de Padre Eustáquio, doou um terreno, onde foi construída a Igreja dos Sagrados Corações, cuja pedra fundamental foi benzida por Dom Cabral. Padre Eustáquio assim se expressou: “Não verei o fim da guerra. Comecei a igreja, mas não a terminarei”.
Em 23 de agosto, após celebrar a missa – durante o retiro que pregava às alunas do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte – sentiu-se desfalecer. O diagnóstico dos médicos acusou um tipo de tifo causado por uma picada de carrapato. Padre Eustáquio tinha certeza de que não iria sobreviver. Chamava o Padre Gil. Enquanto aguardava, renovou os votos religiosos. E, ante a emoção dos presentes, repetiu a fórmula da profissão religiosa; e, renovou os votos de Pobreza, Castidade e Obediência, como irmão da Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. Depois disse aos irmãos: “Graças a Deus, estou pronto! Mas, como demora o Padre Gil!”. Até que no dia 30 de agosto, Padre Gil conseguiu chegar. Assim que o viu, Padre Eustáquio conseguiu erguer-se do leito com grande esforço, e disse: “Padre Gil, graças a Deus!” E desfaleceu para sempre.
Belo Horizonte amanheceu de luto, e a Imprensa noticiava seu falecimento. Após sua morte, constatou-se que um devoto foi curado de um câncer. O relato consta no processo de beatificação, iniciado em 1997. E outros milagres aconteceram.
Padre Eustáquio dizia que sua vocação era “amar e fazer amar a Deus”. Após o reconhecimento de sua vida e de seus milagres, por parte da Santa Sé, Padre Eustáquio foi beatificado em Belo Horizonte, Brasil, pelo Cardeal José Saraiva Martins, a 15 de junho de 2006.
Entre aqueles cuja causa foi oficialmente apresentada à Igreja, destacam-se:
Todos foram mortos por ódio à fé, permanecendo fiéis ao sacerdócio e ao Evangelho até o fim.
O decreto de reconhecimento do martírio foi aprovado pelo Papa Papa Bento XVI em 3 de julho de 2009. Em 13 de outubro de 2013, foram solenemente beatificados em Tarragona, juntamente com mais de quinhentos mártires do mesmo período.
Desde 27 de novembro de 2010, seus restos mortais repousam na Paróquia dos Sagrados Corações de Madri, na capela dedicada a São Damião de Molokai, símbolo eloquente de entrega total e caridade heroica.
Pouco antes de sua morte, o Pe. Teófilo, superior e formador no Seminário Maior de El Escorial, deixou registrada esta exortação profética aos jovens religiosos:
“Que herdemos o espírito heroico do Bom Pai, nosso Fundador. E, se chegarem dias difíceis, permaneçamos firmes na fé e decididos a trabalhar por ela.”
Outro mártir, o Pe. Gonzalo Barrón, declarou com coragem diante de seus algozes:
“Sou sacerdote. Preguei muitas vezes e fui em peregrinação, porque esta é a minha missão.”
O testemunho desses irmãos continua a ecoar na história da Congregação como um chamado à fidelidade, ao amor sem limites e à coragem na missão. Que seu sangue derramado seja semente de novas vocações e inspire cada geração a anunciar, com a própria vida, o Amor do Coração de Cristo transpassado.
Durante este período, a Congregação dos Sagrados Corações sofreu duramente. No dia 12 de abril de 1871, as casas dos Irmãos e das Irmãs da Congregação, situadas na Rua Picpus, em Paris, foram invadidas. Doze padres e um irmão foram presos. Pouco depois, no dia 5 de maio, setenta e quatro Irmãs, juntamente com a Superiora Geral e dez noviças, também foram encarceradas, embora a maioria tenha sido posteriormente libertada.
Quatro membros do Conselho Geral dos Irmãos permaneceram aprisionados até o fim:
No domingo, 21 de maio de 1871, a violência atingiu níveis extremos durante a chamada “Semana Sangrenta”. Na sexta-feira, 26 de maio, com a aproximação das tropas governamentais à prisão de La Roquette, o coronel Émile Gois ordenou a libertação de alguns prisioneiros. Entre os libertados estavam os quatro religiosos dos Sagrados Corações.
Eles foram conduzidos à Rua Haxo e, no pátio da sede da Guarda Nacional, foram brutalmente assassinados diante de uma multidão revoltada. O episódio ficou conhecido como o Massacre da Rua Haxo, símbolo da perseguição religiosa e do ódio contra a fé naquele período.
Testemunho que permanece. Esses quatro religiosos eram homens profundamente dedicados à formação, à vida comunitária e ao serviço da Igreja.
Pe. Ladislau Radigue, SS.CC. foi por muitos anos mestre de noviços e reconhecido como modelo de fidelidade religiosa.
Pe. Policarpo Tuffier, SS.CC. era conhecido pela alegria, sabedoria e bondade com todos.
Pe. Marcelino Rouchouze, SS.CC. destacou-se como educador e servidor discreto da Congregação.
Pe. Frézal Tardieu, SS.CC. homem de grande humildade, foi formador de São Damião de Molokai e exemplo de entrega silenciosa.
Unidos pelo mesmo carisma e pela fidelidade até o fim, eles enfrentaram a morte com serenidade e fé. Sua entrega é testemunho vivo de que nada pode separar o cristão do amor de Cristo.
Um legado de fidelidade
A Igreja reconheceu oficialmente o martírio desses religiosos e os proclamou beatos, como sinal de que sua morte foi um verdadeiro ato de fé e amor.
Hoje, eles permanecem como inspiração para a família dos Sagrados Corações e para toda a Igreja: convite à coragem, fidelidade e esperança, mesmo nas horas mais sombrias da história.
“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos.” (Jo 15,13)